Continuação da Primeira Página
A REGRA QUE DESAPARECE
Segunda parte do relato: o que acontece entre o protótipo feio e a mesa que emudece — e por que a maioria das folhas vai ao cesto
Prossegue a exposição iniciada na primeira página. Trata-se agora do intervalo mais ingrato do ofício: aquele em que o jogo já funciona e ainda assim não presta.
Há um estado intermédio que os manuais não nomeiam e que todo aquele que já cortou cartão conhece de cor: o do jogo que funciona. As regras fecham, ninguém pergunta nada duas vezes, a partida chega ao fim na hora prevista — e, no entanto, ao levantar da mesa, ninguém tem o que contar. Funcionar não é o bastante. É apenas a condição para começar.
O erro que se comete nessa fronteira é o de tomar a ausência de defeito por presença de virtude. Corrige-se o desequilíbrio, apara-se a regra confusa, encurta-se a duração — e cada correção deixa o jogo mais liso e menos memorável. Alisa-se até o tédio. Esta folha já enterrou quatro protótipos assim, todos impecáveis.
O que falta a esses cadáveres bem-comportados é o momento de tensão: o instante em que a decisão custa. Um jogo sem custo é um passatempo com peças; agrada enquanto dura e evapora ao guardar a caixa.
Funcionar não é o bastante. É apenas a condição para começar.
Do silêncio como instrumento de medida
Aprendeu-se nesta oficina a observar menos o que se diz à mesa e mais o que se cala. O silêncio de tédio e o silêncio de cálculo parecem-se de longe e nada têm em comum. O primeiro é frouxo, acompanhado de olhares para a janela; o segundo é tenso, e o corpo se inclina sobre o tabuleiro.
Registramos ambos em caderno próprio, com a hora e a rodada. Ao fim de uma temporada, o caderno diz mais que qualquer questionário: os pontos em que o segundo silêncio aparece são o esqueleto do jogo, e o que estiver fora deles pode ser cortado sem dó.
Foi assim que o protótipo de colocação de peças perdeu um terço das regras entre a quarta e a quinta versão. Nenhuma daquelas regras era má. Todas eram silêncio do primeiro tipo.
O cesto e sua aritmética
Contabiliza-se nesta casa quatrocentas e dezessete folhas descartadas. O número consta do quadro de estatísticas publicado na primeira página e costuma causar espanto ao visitante, que o toma por desperdício. É o contrário: é o preço declarado do método.
Cada folha ao cesto é uma hipótese que foi levada à mesa e reprovada por evidência, não por gosto. O desperdício verdadeiro seria o oposto — guardar a hipótese por afeição e descobrir na tiragem que ela não se sustentava.
Do tema, enfim
Só depois de estabelecido o esqueleto convém vestir o jogo. E então a escolha do tema deixa de ser ornamento e passa a ser argumento: escolhe-se o tema que explica a mecânica, não o que a decora. Se a mecânica trata de escassez, que o tema seja de escassez; caso contrário, o jogador há de aprender duas coisas incompatíveis ao mesmo tempo e não aprenderá nenhuma.
É neste ponto que o ofício se aproxima da tipografia, arte irmã desta folha: também ali a forma tem de servir ao sentido, e o ornamento que atrapalha a leitura é ornamento a menos, nunca a mais.
— L. R.
